Relato de Raiza Goulão, sobre o Cape Epic deste ano. Fica aqui nossa homenagem, #parabensRaiza. Vale a pena ler, na íntegra:

É muito difícil resumir em um único release os oito dias de prova que realizei novamente com minha amiga e parceira Margot Moschetti. Foram momentos inesquecíveis, com altos e baixos, montanhas acima e trilhas abaixo, paisagens de tirar o folego, imprevistos, superação, dias de caçador e dias de caça.

Foram oito etapas, sendo duas com distancias curtas, quatro longas e dois estágios com distancias médias, repletas de trilhas. Provas de ultramaratona em duplas são mais complexas do que imaginamos e envolvem mais do que o trabalho da dupla em si. São os pequenos detalhes que no final fazem a diferença, entre eles posso listar entrosamento, ritmo, respeito, setup de nossos equipamentos, alimentação, hidratação e recuperação pós prova.

Após oito dias muito intensos, quero compartilhar com vocês a experiência de competir no CE e o que se passava em minha mente. O primeiro e o segundo dia no acampamento foram os momentos mais críticos. A área de camping ficava em um campo aberto sem grama, com um piso irregular, repleto de poeira onde nada parava limpo. A sensação desse clima de deserto era muito ruim e tivemos péssimas noites de sono. Outra coisa que incomodava muito era a sensação de sujeira, pois apesar de lavar as roupas, elas continuavam sujas depois de secas.

Após um prólogo no qual aproveitamos para buscar o ritmo ideal para a dupla, encaramos a primeira etapa longa de 111km. Tivemos o azar de contar com 2 pneus furados e perdemos entre 8 a 10 minutos paradas na etapa. A meta era conseguir tomar o menor tempo possível das demais duplas, pois depois que se desconecta do grupo líder, fica muito mais duro manter um ritmo forte.  Após os imprevistos, finalizamos na 7˚ colocação, com uma diferença significativa para as primeiras colocadas. Não desanimamos, pois numa competição como essa muita coisa ainda podia acontecer.

No segundo dia, com 106km, após conversar com minha parceira, traçamos uma estratégia e conseguimos completar a etapa sem imprevistos e com um ritmo constante. A Margot sentiu um pouco o ritmo da primeira etapa e decidimos poupa-la para as etapas seguintes. Finalizamos com uma 5˚ colocação, dentro do que tínhamos planejado.

A terceira etapa foi a mais longa, com 122km. Não acordei bem, com muitas dores musculares e uma sensação de fraqueza, sentido o estomago ruim e náusea. Largamos com o objetivo de diminuir a diferença de tempo para as duplas rivais e melhorar a nossa posição na classificação geral. Fechamos com uma 4˚ colocação e subimos para o 5º  lugar na geral,  mas paguei o preço pelo esforço e me senti muito mal durante a tarde. A fraqueza tomou conta do meu corpo e fiquei mais enjoada, até chegar um ponto que tive que buscar ajuda com a equipe médica do evento. O diagnóstico foi de ter contraído uma virose que afetou vários outros atletas e fui medicada e orientada a repousar durante o resto do dia. Me sentia febril e não consegui me alimentar direito. Cheguei até a pensar em abandonar a prova, mas encontrei força interior e coragem para enfrentar o que viria adiante.

Na manhã seguinte, levantei bem melhor, com menos incomodo no estômago, mas muito fraca. Após a largada, sentia que o meu corpo simplesmente não respondia e não tinha potência. Era uma etapa em que tínhamos condições de fazer muito bem, mas me arrastei e concluímos o dia com muito sacrifício. A primeira sensação que tive foi de frustração por ter perdido todo o tempo recuperado no dia anterior e ainda ver a diferença para as rivais aumentar. Caímos para a 7ª colocação na geral e a melhor palavra para resumir o que sentia é desanimo. Após um bom banho no qual consegui refrescar o corpo e a cabeça, consegui compreender que devemos respeitar os limites de nosso corpo.  Algo que pesa muito nesses momentos em que estamos debilitados é o equilíbrio mental e a sensação de estar prejudicando a dupla. Mas quando me coloquei no lugar dela e pensei como estaria me sentindo, descobri o verdadeiro espirito de equipe. É nas adversidades que respeitamos os limites um dos outros e crescemos juntos. Nesta tarde decidi simplesmente focar na minha recuperação, com uma alimentação simples e leve, para meu estomago voltar a estar 100% e ter energia para os dias que viriam.

A etapa seguinte foi a Time Trial. Conversei com a Margot e a nossa estratégia era fazer uma prova consciente porem não a 100%.  O objetivo era me poupar para as próximas etapas, mas mesmo assim conseguimos um 4˚ lugar, muito contente vendo que meu corpo estava voltando ao normal. Devido a etapa ter sido curta, conseguimos um período maior de descanso. Já estava me sentindo melhor e o bom humor voltou. O ambiente ficou mais descontraído e a noite até rolou pizza no jantar. Foi uma sensação bem legal, que me fortaleceu muito.

Ao acordar me senti bem, renovada. As pernas estavam novas e me dei o direito de correr somente por meu feeling, sem olhar os números no Garmin, deixando somente a distância percorrida na tela do meu monitor. Largamos e conseguimos conectar com o grupo líder por muito mais tempo, mantendo em alguns momentos durante a prova a segunda colocação. Quando vimos que naquele dia estaríamos entre as top 3, foi mágico. Algo diferente que rolou nesse dia foi a música da largada da prova, que não saía da minha cabeça (Unstoppable – The Score).

Outra coisa que também ficou na minha mente foi uma conversa com um amigo, sobre a diferença de ser o Caçador ou a Caça. Resumindo, decidi ser o caçador a cada momento desta etapa, desfrutando cada momento, cada trilha, em sintonia com a minha bike Mondraker. Foi algo que não consigo expressar por palavras. Cruzar a linha de chegada e ir para a zona de pódio me energizou e me preencheu com uma sensação de realização. Senti que devia isso à minha parceira Magort.  Depois do pódio, voltei para o camping com sorriso de orelha a orelha. Brincando com todos os amigos do staff, disse o seguinte: Gente, não vamos mudar nada na rotina de hoje viu! Quero a mesma massagem, o mesmo jantar e o mesmo café da manhã! Hehehe. Será que fui supersticiosa?

Para a última etapa, eu estava com sede, com vontade de ser o Caçador novamente e repetir aquela sensação do top 3. As 3 primeiras duplas já estavam definidas, e a briga era contra o relógio naquele momento para as definir as duplas da 4˚ a 6˚ colocações. As diferenças de tempo eram de apenas alguns minutos. Simplesmente busquei manter o foco e dar o máximo a cada instante para buscar a 4˚ colocação na geral. A Margot também estava muito bem e conseguimos nos posicionar na 3˚ colocação, com o objetivo de manter um ritmo forte para subir na classificação geral. Quando vimos em uma subida longa que estávamos nos aproximando das 2 primeiras duplas, sentimos que aquele era o nosso momento, a nossa oportunidade, e encontramos uma fluidez incrível e emocionante nos últimos 35km.

Fomos reduzindo a distância e aproveitamos uma subida técnica para assumir a liderança e abrir uma diferença. Aquele momento foi crucial, quando decidimos apostar todas as fichas em uma fuga para buscar a vitória em uma etapa da CE. Dali em diante o foco era manter um ritmo constante e aumentar a vantagem para as demais duplas. Os últimos quilômetros foram incríveis, principalmente na última subida quando fomos acompanhadas pelos helicópteros e depois por bikes elétricas com câmeras GoPro. A nossa dupla encontrou o auge do entrosamento naquele momento e sentíamos que uma motivava a outra. A cada quilometro que deixávamos para trás, o entusiasmo e a felicidade cresciam. Cruzamos a linha de chegada com um sorriso de orelha a orelha e com uma lição aprendida: É possível! Tenho sempre que acreditar que é possível!

Com 8 dias de prova, minha Mondraker Podium mostrou que está pronta para todos os desafios. Completei essa aventura sem problemas mecânicos e contei com o seguinte set-up em minha bike:

  • Pneus Mitas Scylla 2.25 com 1.2 bars na roda dianteira e 1.4 bars na roda traseira
  • Pedevela rotor 2 inpower com coroa 34
  • Grupo sram eagle
  • Rodas Prototype de carbono
  • 60 psi na suspensão dianteira

Agora de volta ao Brasil para recarregar as energias, já estou focando no próximo desafio dia 08 de abril, quando disputarei o campeonato Pan Americano de MTB em Pereira, na Colômbia.

Crédito obrigatório das fotos: Nick Muzik e Mark Sampson / Cape Epic / SPORTZPICS.

Andar com fé eu vou, porque a fé não costuma falhar.

#TIMERAIZA

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